Algumas mulheres não sabem descansar
Artigo
Por *Andreia Lages
Tem mulheres que limpam a casa cansadas.
Organizam gavetas cansadas.
Respondem mensagens cansadas.
Sorriem cansadas.
Dormem cansadas.
Acordam cansadas.
Mas o que as exaure nem sempre é o excesso de tarefas.
Às vezes, é o excesso de sustentação.
Existe uma diferença silenciosa entre estar ocupada e estar emocionalmente responsável por tudo. E muitas mulheres aprenderam cedo demais que amar significava suportar. Antecipar. Resolver. Não incomodar. Não falhar.
Então elas seguem.
Mesmo quando o corpo pede pausa.
Mesmo quando a mente implora silêncio.
Mesmo quando a alma já não consegue produzir presença dentro da própria vida.
No consultório, quase nunca encontro mulheres preguiçosas.
Encontro mulheres treinadas a sobreviver.
Mulheres que transformaram vigilância em personalidade.
Controle em maturidade.
Autossuficiência em valor.
Algumas não conseguem descansar porque acreditam que, se pararem, tudo desmorona.
Outras porque nunca aprenderam que poderiam existir sem estar servindo alguém.
E há ainda aquelas que sentem culpa quando finalmente têm um momento de paz.
Como se sofrimento fosse uma espécie de comprovante de merecimento.
A psicanálise nos mostra que o excesso raramente nasce apenas da rotina. Muitas vezes ele nasce da história emocional de alguém. Da criança que precisou crescer rápido. Da menina que percebeu cedo que precisava ser “forte”. Da mulher que aprendeu a ocupar pouco espaço emocional para não ser abandonada.
Por isso, descansar pode ser assustador.
Quando o barulho externo diminui, muitas vezes aparece aquilo que foi silenciado por anos: tristeza, vazio, raiva, solidão, medo de não ser suficiente.
Há pessoas que não sabem parar porque nunca puderam sentir.
E talvez uma das maiores violências emocionais que uma mulher possa viver seja acreditar que só merece amor quando está se doando até o limite.
Mas ninguém deveria precisar adoecer para finalmente receber cuidado.
Descansar não é fracasso.
Pedir ajuda não diminui ninguém.
E existir além da utilidade também é uma forma legítima de vida.
Talvez amadurecer seja justamente isso: perceber que ser forte o tempo todo também pode ser uma prisão.
Porque há um cansaço que o sono não resolve.
Só a reconstrução de si.

*Andéia Lages
SOBRE A AUTORA
Andreia Lages é psicanalista e escritora. Desenvolve trabalhos voltados à escuta emocional, afetos contemporâneos e linguagem terapêutica, utilizando a escrita como ferramenta de reflexão e encontro humano.
Atualmente escreve o livro “A verdade no divã — entre espelhos e silêncios”, obra que inspira a identidade da coluna.

Contato: 17-99747-1682



