“Deixa pra lá?” — O luto que eu carrego

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Artigo

*Andreia Lages

O luto incomoda uma sociedade que aprendeu a transformar tudo em produtividade, aparência e continuidade.
As pessoas até aceitam a dor — desde que ela seja rápida, silenciosa e não atrapalhe o ritmo do mundo.

Existe uma espécie de egoísmo social disfarçado de conselho quando alguém diz:
“deixa pra lá”,
“você precisa seguir”,
“isso já passou”.

Como se elaborar uma perda fosse apenas uma escolha racional.
Como se a ausência pudesse ser arquivada em alguma gaveta emocional para não constranger os outros com aquilo que ainda dói.

Mas o luto não funciona no tempo da pressa.
O luto não respeita calendários sociais.
Ele aparece no cheiro, nos lugares, nas datas comuns, nas pequenas distrações do dia em que, de repente, a falta reaparece inteira.

O luto não avisa quando volta.
Às vezes ele reaparece no lado vazio da cama,
em uma música tocando distraidamente no mercado,
ou no impulso automático de pegar o telefone para contar algo a quem já não está.

E talvez uma das maiores violências emocionais seja exigir que alguém supere rapidamente aquilo que um dia sustentou afetos, vínculos, pertencimentos ou partes inteiras de si.

Há perdas que não dizem respeito apenas ao outro que partiu,
mas também às versões de nós que existiam naquela presença.
E talvez seja por isso que alguns lutos sejam tão longos:
porque não enterramos apenas pessoas,
enterramos também partes inteiras da nossa própria história.

A sociedade chama de força aquilo que muitas vezes é apenas silenciamento.
Chama de maturidade o afastamento da dor.
E chama de exagero tudo aquilo que lembra que somos profundamente atravessados pelas perdas.

Mas esquecer não é cura.
Apressar o sofrimento não é elaboração.
E seguir vivendo não significa fingir que nada morreu dentro de nós.

Algumas ausências continuam existindo em silêncio.
Não porque a vida parou,
mas porque certas pessoas, relações e versões de nós mesmos nunca partem completamente.

*Andéia Lages

SOBRE A AUTORA

Andreia Lages é psicanalista e escritora. Desenvolve trabalhos voltados à escuta emocional, afetos contemporâneos e linguagem terapêutica, utilizando a escrita como ferramenta de reflexão e encontro humano.

Atualmente escreve o livro “A verdade no divã — entre espelhos e silêncios”, obra que inspira a identidade da coluna.

Contato: 17-99747-1682