A sutileza do abandono invisível

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Artigo

Existe um tipo de abandono que não se reconhece pela ausência.

Ele se apresenta como presença contínua.

Não há ruptura.

Não há saída.

Não há gesto que encerre.

Ainda assim, algo se perde.

O abandono invisível acontece dentro do vínculo, quando a presença não alcança o lugar onde o outro realmente existe.

É quando alguém está ali, mas não encontra.

Quando ama, mas não toca.

Quando permanece, mas não chega.

Não se trata de falta de amor.

Muitas vezes, trata-se justamente do contrário: de um amor que insiste em se manter vivo, mesmo quando perdeu a precisão do encontro.

Há vínculos que se sustentam a partir de uma tentativa silenciosa de corresponder ao que se imagina que o outro precisa, e não ao que o outro efetivamente vive.

E, nesse deslocamento sutil, algo essencial se perde: a escuta do lugar do outro.

O amor continua sendo oferecido.

Mas deixa de ser atravessado.

E o que não atravessa, ainda que esteja presente, não encontra.

Com o tempo, o vínculo vai se reorganizando em torno de adaptações invisíveis.

O outro passa a ser sustentado em versões possíveis de si.

Versões que cabem.

Versões que não desorganizam.

Versões que não exigem demasiada presença emocional.

Mas toda vez que alguém precisa ser menor para caber em um vínculo, algo nele deixa de ser encontrado.

E isso não é percebido de imediato.

Porque o abandono invisível não interrompe a relação.

Ele a mantém funcionando.

E é exatamente isso que confunde.

A continuidade dá a impressão de cuidado.

Mas, por dentro, algo já não se reconhece mais como encontro.

Talvez o mais difícil nesse tipo de experiência seja a ausência de um marco.

Não há um acontecimento que possa ser apontado como origem da dor.

Há apenas um acúmulo de pequenos desencontros.

Pequenas ausências de resposta.

Pequenas distâncias emocionais dentro da proximidade.

Pequenas impossibilidades de ser alcançado no lugar exato onde se está.

E, com o tempo, isso produz uma forma específica de solidão:

a solidão dentro do vínculo.

Não é estar só.

É não ser encontrado.

A psicanálise nos mostra que nem todo sofrimento nasce da ausência.

Alguns nascem da presença que não alcança.

Porque presença não é apenas estar.

É alcançar.

É sustentar o outro no ponto em que ele existe, e não no ponto em que se espera que ele esteja.

Quando isso não acontece, o vínculo se mantém, mas começa a exigir ajustes internos constantes.

E quem recebe esse tipo de amor aprende, sem perceber, a se adaptar.

Aprende cedo a observar o humor da mãe antes de perceber a própria tristeza.

Aprende a compreender o cansaço do pai antes de encontrar palavras para nomear a própria necessidade de colo.

Aprende a ser a criança que não incomoda.

O amigo que sempre escuta.

O adulto que resolve sozinho.

A mulher forte que raramente pede ajuda.

Aprende que amadurecer talvez seja não precisar.

Que amar seja compreender.

Que pertencer seja não exigir demasiada presença.

Há pessoas que passaram a vida inteira sendo compreensivas porque, em algum momento, compreender o outro pareceu mais seguro do que precisar dele.

E, aos poucos, aquilo que começou como uma tentativa de preservar vínculos transforma-se em modo de existir.

Até que um dia algo se desloca.

Talvez durante uma análise.

Talvez em uma relação amorosa.

Talvez diante do próprio filho.

Talvez em uma tarde qualquer, ao perceber o desconforto inexplicável de sempre esperar menos do que realmente se deseja.

Então surge uma pergunta silenciosa:

Em que momento aprendi que precisava diminuir partes de mim para continuar sendo amada?

Porque o abandono invisível raramente ensina que somos indesejáveis.

Ele ensina algo mais delicado.

Ensina que certas necessidades devem esperar.

Ensina que determinadas tristezas podem ser adiadas.

Ensina que algumas regiões de nós não encontrarão morada suficiente no outro.

E talvez seja por isso que tantas pessoas passem a vida confundindo autonomia com adaptação.

Confundindo maturidade com silêncio.

Confundindo força com a antiga experiência de ter precisado sobreviver emocionalmente dentro de vínculos que permaneceram presentes, mas nem sempre alcançaram o lugar exato onde elas existiam.

Talvez por isso esse tipo de abandono seja tão difícil de nomear.

Porque ele não se parece com perda.

Ele se parece com continuidade.

Mas há continuidades que não sustentam encontro.

E quando finalmente se percebe isso, o que emerge não é apenas a dor do que faltou.

É o reconhecimento de tudo aquilo que permaneceu sem ser alcançado, mesmo estando perto.

E talvez seja exatamente aí que algo começa a mudar.

Quando se deixa de confundir presença com encontro.

E, sobretudo, quando se compreende que ser amado não deveria exigir o desaparecimento gradual de partes importantes de si.

*Andréia Lages
Entre Espelhos e Silêncios

Andréia Lages é Psicanalista / Membro do Name(Núcleo Ace da Mulher Empreendedora)/ Empresária Sócia da loja Different grife

(17)-99747-1682