Quando explicar deixa de ser comunicação e passa a ser uma tentativa de ser validado

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Artigo

*Silvia Helena Cardoso do Amaral / CRP06/113107

Na clínica, é possível observar como algumas pessoas passam uma parte significativa da vida tentando explicar a si mesmas.
Explicam o que sentiram, por que reagiram daquela maneira, o que quiseram dizer, por que determinada situação as feriu. Reconstroem acontecimentos, oferecem contexto, antecipam possíveis interpretações e, muitas vezes, continuam falando mesmo depois de perceberem que não estão sendo verdadeiramente escutadas.
À primeira vista, pode parecer apenas uma dificuldade de comunicação.

Mas, em determinados funcionamentos psíquicos, existe algo mais profundo.
A necessidade insistente de explicar pode estar relacionada à necessidade de ser reconhecido pelo outro. Como se a própria experiência emocional só pudesse adquirir legitimidade depois de ser compreendida, aceita ou confirmada externamente.
Então, a pessoa não está apenas tentando comunicar o que viveu.
Está tentando garantir que o outro reconheça que aquilo que ela sentiu é legítimo.
E isso pode produzir um movimento exaustivo: quanto menos se sente compreendida, mais explica; quanto mais explica e não encontra reconhecimento, mais duvida de si mesma.

É nesse ponto que a relação pode deixar de ser um espaço de encontro e se transformar em um lugar de constante autodefesa.
Clinicamente, talvez seja importante perguntar:

O que essa pessoa acredita que acontecerá se o outro não compreender sua versão dos fatos?
Porque existe uma diferença significativa entre desejar ser compreendido e precisar ser compreendido para conseguir sustentar aquilo que se sente.
A capacidade de reconhecer a própria experiência emocional não significa acreditar que temos sempre razão. Significa conseguir sustentar o que sentimos enquanto permanecemos disponíveis para refletir, rever posições e reconhecer a perspectiva do outro.

Nem toda discordância é invalidação.
Nem toda incompreensão precisa ser corrigida.
E nem todo sentimento precisa ser transformado em argumento para merecer respeito.
Talvez uma importante conquista no processo de amadurecimento psíquico seja justamente esta: aprender a diferenciar a necessidade de ser compreendido da necessidade de ser validado pelo outro.

Porque, quando dependemos excessivamente da confirmação externa, corremos o risco de entregar ao outro uma função que também precisa ser construída internamente: a de reconhecer a própria experiência.
E algumas vezes, o trabalho clínico começa exatamente aí, quando a pessoa deixa de perguntar apenas:
“Como faço para que o outro entenda o que estou sentindo?”

E começa a perguntar:
“Por que eu preciso tanto que o outro reconheça aquilo que eu já sei que sinto?”

*Silvia Helena Cardoso do Amaral / CRP06/113107

Professora, psicopedagoga e psicóloga, pós-graduada em Psicologia Sexual, Neuropsicologia, Psicanálise Clínica, Saúde Mental e Terapia de Casais.

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