Quando a vida pede entrega: a primavera também acontece por dentro

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Artigo

A primavera chega sem pedir licença. Depois de dias frios, de árvores que parecem ter esquecido como florescer, a vida começa, silenciosamente, a se movimentar outra vez.

Talvez seja por isso que ela nos toque tanto.

Porque, de alguma maneira, todos nós atravessamos nossos próprios invernos.

Há períodos em que fazemos tudo o que podemos e, ainda assim, não vemos resultados. Plantamos, cuidamos, esperamos… e nada parece acontecer. É quando a ansiedade tenta nos convencer de que estamos atrasados, de que deveríamos estar em outro lugar, vivendo outra história, sendo outra pessoa.

Mas a natureza não tem pressa.

Uma árvore não se culpa porque ainda não floresceu. Ela simplesmente atravessa o tempo que precisa atravessar.

E talvez essa seja uma das maiores aprendizagens que a primavera nos oferece: nem tudo o que está em silêncio está parado.

Existem processos acontecendo dentro de nós que ainda não podem ser vistos. Há raízes se fortalecendo, pensamentos amadurecendo, feridas encontrando novas formas de cicatrizar e versões nossas sendo construídas longe dos olhos dos outros.

Por isso, há momentos em que a vida não nos pede movimento.
Pede entrega.Entrega não é desistência.É reconhecer os limites daquilo que podemos controlar.

É fazer a nossa parte e compreender que existe uma parte da vida que não responde à nossa pressa.

Confiar também não significa saber que tudo acontecerá exatamente como desejamos. Confiar é conseguir permanecer inteiro mesmo diante daquilo que ainda não compreendemos.

É olhar para o caminho e dizer: eu não sei exatamente onde isso vai me levar, mas sei que não preciso controlar cada passo para continuar caminhando.

Talvez você esteja vivendo justamente esse intervalo.

Entre aquilo que terminou e aquilo que ainda não começou.
Entre a certeza que perdeu e a nova certeza que ainda não encontrou.
Entre a semente e a flor.

E esses intervalos podem ser desconfortáveis. Queremos respostas, definições, resultados. Queremos saber quando vai passar, quando vai acontecer, quando finalmente poderemos respirar tranquilos.

Mas algumas coisas não florescem porque foram pressionadas. Florescem porque encontraram tempo, cuidado e condições para existir.

A primavera nos lembra que há uma sabedoria no tempo que não conseguimos acelerar.

Nem todo dia será de flores. Alguns serão de poda. Outros, de espera. Haverá dias de sol e dias de chuva. E tudo isso também faz parte do processo.
Talvez amadurecer seja aprender a não interpretar cada inverno como o fim da nossa história.

Às vezes, é apenas uma estação.

E quando compreendemos isso, começamos a olhar para nós mesmos com menos cobrança e mais respeito. Passamos a reconhecer que chegar até aqui também foi uma conquista. Que sobreviver a determinadas fases exigiu forças que ninguém viu. Que algumas das nossas maiores transformações aconteceram justamente nos períodos em que, por fora, parecia que nada estava acontecendo.

Então, que esta primavera nos encontre disponíveis para recomeçar, mas sem a obrigação de começar tudo de novo.

Que possamos florescer a partir de quem nos tornamos.

Com menos pressa.
Menos comparação.
Menos necessidade de controlar.
E com mais entrega, presença e confiança.

Porque talvez a vida não esteja atrasada.

Talvez ela esteja apenas respeitando o tempo necessário para que aquilo que está sendo construído dentro de nós possa, finalmente, florescer por fora.

E há flores que só nascem depois que aprendemos a confiar no tempo.

Artigo por *Dra Silvia Helena Cardoso do Amaral

Professora, psicopedagoga e psicóloga, Silvia Helena Cardoso do Amaral é pós-graduada em Psicologia Sexual, Neuropsicologia, Psicanálise Clínica, Saúde Mental e Terapia de Casais