Esperando o ônibus na linha do trem

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*Artigo

Há frases que chegam prontas.

Não porque expliquem alguma coisa.

Mas porque revelam aquilo que passamos anos tentando nomear.

Outro dia ouvi alguém dizer:

“Sinto que estou com frio na linha do trem esperando o ônibus passar.”

A frase permaneceu em mim.

Não porque fosse lógica.

Mas porque era profundamente verdadeira.

O ônibus nunca passará pela linha do trem.

Ainda assim, quantas vezes construímos nossa vida exatamente nesse lugar?

Não é a espera que nos aprisiona.

É o endereço onde decidimos esperar.

Há pessoas que passam anos aguardando que um pai finalmente reconheça seu esforço.

Outras continuam oferecendo amor a quem só aprendeu a responder com ausência.

Há quem espere que um casamento devolva aquilo que nunca existiu, que um irmão compreenda, que um chefe enxergue, que uma mãe acolha, que um filho retribua.

O sofrimento raramente nasce da falta.

Ele nasce da insistência.

Da delicada e dolorosa capacidade humana de permanecer investindo esperança em lugares que nunca puderam responder ao nosso desejo.

É curioso perceber que, quando esperamos durante muito tempo, deixamos de apenas esperar.

Passamos a habitar a espera.

Ela deixa de ser um momento.

Torna-se uma forma de existir.

A vida continua acontecendo ao redor, mas nossos olhos permanecem fixos na direção de algo que nunca virá.

Talvez por isso a imagem do frio seja tão precisa.

O frio é o corpo anunciando que aquele lugar deixou de oferecer abrigo.

Mesmo assim, permanecemos.

Acostumamo-nos à temperatura da ausência.

Inventamos explicações.

Dizemos que é preciso ter paciência.

Que talvez amanhã seja diferente.

Que basta esperar mais um pouco.

Enquanto isso, o tempo faz o que sempre fez.

Passa.

Existe uma dor silenciosa em admitir que algumas esperas nunca dependeram do tempo.

Dependiam apenas de reconhecer que estávamos na estação errada.

E essa talvez seja uma das descobertas mais difíceis da vida.

Porque levantar-se dali não significa apenas mudar de caminho.

Significa abandonar a fantasia de que, insistindo o suficiente, o impossível um dia acontecerá.

Há despedidas que não acontecem entre pessoas.

Acontecem entre nós e as expectativas que alimentamos durante anos.

Talvez amadurecer seja exatamente isso.

Não deixar de desejar.

Mas aprender que nem todo desejo encontrará resposta no lugar onde insistimos em procurá-la.

E há uma liberdade discreta quando finalmente compreendemos isso.

Não porque o frio desapareça imediatamente.

Mas porque, pela primeira vez, deixamos de esperar o ônibus na linha do trem.

E escolhemos caminhar até um lugar onde a vida, silenciosamente, sempre esteve nos esperando.

*Andréia Lages

Psicanalista/Escritora/Colunista/Membro do Name (Núcleo da Mulher Empreendedora) da ACE Catanduva e sócia-proprietária da grife Different

Contato Watsapp (17) 99747-1682