Artigo
Existe um equívoco comum quando pensamos em organização. Acreditamos que organizar é encontrar espaço para tudo.
Compramos caixas, instalamos novas prateleiras, reorganizamos armários, adquirimos agendas e planners na esperança de que, finalmente, a vida encontre seu lugar. Por alguns instantes, a sensação é de alívio. O que estava espalhado agora parece acomodado. O que causava desconforto parece sob controle.
Mas nem toda organização produz ordem.
Muitas vezes, apenas tornamos a desordem mais bonita.
As prateleiras de uma casa revelam muito mais do que objetos. Elas contam histórias sobre escolhas. Mostram aquilo que consideramos importante manter ao alcance das mãos e aquilo que empurramos para os cantos menos visíveis. Algumas sustentam o essencial. Outras carregam coisas que já perderam sua função, mas permanecem ali porque nunca paramos para decidir o que fazer com elas.
A vida psíquica não é muito diferente.
Também construímos prateleiras internas.
Nelas colocamos responsabilidades, afetos, sonhos, culpas, perdas, expectativas e desejos. Ao longo dos anos vamos empilhando experiências, compromissos e funções. Assumimos novos papéis, abraçamos novas tarefas e seguimos acrescentando peso à estrutura sem perguntar se ela foi feita para suportar tudo isso.
O excesso costuma se disfarçar de produtividade.
Fazemos mais.
Assumimos mais.
Carregamos mais.
E, muitas vezes, confundimos movimento com transformação.
Há pessoas que passam a vida procurando novas prateleiras para sustentar aquilo que já não cabe. Assumem mais uma responsabilidade, mais um compromisso, mais uma função. Não porque precisem delas, mas porque o espaço vazio pode ser assustador. O vazio exige perguntas. O excesso, ao contrário, mantém a mente ocupada.
A psicanálise nos mostra que o sofrimento humano não nasce apenas da falta. Muitas vezes ele nasce do acúmulo.
Acumulam-se obrigações para evitar o encontro com o desejo.
Acumulam-se funções para não entrar em contato com a fragilidade.
Acumulam-se responsabilidades porque, em algum momento da história, ser necessário ao outro pareceu mais seguro do que reconhecer as próprias necessidades.
Assim, as prateleiras vão se enchendo.
E quanto mais cheias ficam, mais difícil se torna distinguir aquilo que realmente importa.
Mas existe algo ainda mais interessante sobre as prateleiras.
Nem todas estão à mostra.
Há prateleiras que ficam atrás dos armários.
Não aquelas que exibimos aos visitantes, nem as que organizamos cuidadosamente para que pareçam bonitas aos olhos de quem passa. Refiro-me às prateleiras escondidas, esquecidas pela rotina, onde guardamos aquilo que não sabemos onde colocar.
Nelas repousam as pérolas das nossas dores mais profundas.
Memórias que evitamos tocar.
Perdas que aprenderam a sobreviver em silêncio.
Lutos interrompidos.
Palavras nunca ditas.
Partes de nós que foram empurradas para trás porque, em algum momento, precisávamos continuar vivendo apesar delas.
São prateleiras que raramente observamos.
Talvez apenas nos momentos em que a vida nos obriga a fechar a porta, sentar em silêncio e chorar. Nesses instantes, quando o barulho do mundo diminui, nossos olhos alcançam aquilo que permaneceu escondido durante anos.
É curioso perceber que passamos tanto tempo tentando organizar o que está do lado de fora, enquanto evitamos olhar para aquilo que permanece guardado dentro de nós.
E não porque nos falte coragem.
Mas porque algumas dores exigem tempo.
Exigem elaboração.
Exigem um encontro delicado com partes da nossa história que não podem ser organizadas da mesma forma que organizamos uma gaveta ou uma agenda.
Por isso, em determinados momentos da vida, percebemos que a desordem não se encontra na mesa de trabalho, no armário ou na rotina.
Ela habita territórios mais profundos.
E organizá-los requer outro tipo de planejamento.
Não o planner semanal que compramos na livraria.
Não a lista de metas que recomeçamos toda segunda-feira.
Não a promessa de que, desta vez, conseguiremos controlar tudo.
Organizar essas prateleiras exige um planejamento psíquico.
Quase espiritual.
Exige a coragem de olhar para aquilo que foi guardado no fundo dos armários da alma e perguntar por que ainda ocupa tanto espaço.
Não para descartar a própria história.
Mas para atribuir sentido a ela.
Porque amadurecer talvez seja isso: reconhecer que nem tudo precisa permanecer ao alcance das mãos, mas tudo aquilo que vivemos merece encontrar um lugar.
Talvez a vida não nos peça, em determinados momentos, mais uma prateleira.
Talvez nos peça coragem para abrir os armários.
Porque, às vezes, a desordem que nos impede de seguir não está espalhada pela casa.
Está cuidadosamente guardada atrás das portas que raramente abrimos.
Esperando, em silêncio, que finalmente possamos olhar.

Andréia Lages
Psicanalista
17-99747-1682



