Quando o relacionamento não acaba, mas também não existe mais, sobre o luto vivo

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Há perdas que não acontecem de uma vez,
elas não chegam com um anúncio, não têm data marcada, nem um ponto final claro,
elas se instalam aos poucos, dentro de relações que ainda existem, mas já não nos encontram do mesmo jeito.

É possível estar em um relacionamento, e, ainda assim, sentir que algo essencial já se foi.

Esse tipo de experiência tem sido cada vez mais comum e, muitas vezes, silenciosa, não há término oficial, não há ruptura explícita, mas há distanciamento, ausência emocional, mudanças sutis que, somadas, transformam completamente o vínculo.

Do ponto de vista clínico, podemos aproximar essa vivência do que se chama de luto ambíguo, um tipo de perda que não se organiza de forma concreta, a pessoa está ali, mas não está, o vínculo continua, mas já não é o mesmo.

E isso confunde.

Porque, diferente de um fim declarado, não há espaço claro para o luto,
não há despedida,
não há validação externa da dor,
não há autorização social para sofrer.

Mas há sofrimento.

Sofre-se pela presença que já não acolhe,
pela conversa que não acontece,
pelo afeto que deixou de circular,
pela versão da relação que existia, e que, aos poucos, deixou de existir.

É um luto que se vive em suspenso.

E talvez uma das partes mais difíceis seja justamente essa,
a esperança intermitente.

Porque, quando não há fim, ainda há expectativa,
um gesto, uma mudança, um retorno,
e é nesse intervalo, entre o que ainda é e o que já deixou de ser, que muitas pessoas permanecem emocionalmente presas.

Não se trata de apego frágil ou dificuldade em seguir em frente, como tantas vezes se interpreta de forma simplista, trata-se de um vínculo que não encontrou um lugar psíquico de encerramento.

Algo dentro ainda não pôde ser simbolizado como perda.

E, sem isso, o luto não se organiza, ele se prolonga.

Reconhecer esse tipo de experiência é, por si só, um movimento importante, nomear o que se vive ajuda a dar contorno ao que antes era apenas sensação difusa.

Há relações que não terminam, mas precisam ser elaboradas como se tivessem terminado.

Autorizar-se a viver esse luto, mesmo sem um fim oficial, é um passo essencial para sair desse estado de suspensão emocional.

Isso não significa negar o que ainda existe, mas reconhecer, com honestidade, o que já não existe mais.

E, a partir daí, permitir-se reconstruir.

Porque seguir não é, necessariamente, ir embora,
às vezes, é mudar a forma como se permanece.

*Artigo de autoria da dra Silvia Helena Cardoso do Amaral; Professora, psicopedagoga e psicóloga, pós-graduada em Psicologia Sexual, Neuropsicologia, Psicanálise Clínica, Saúde Mental e Terapia de Casais

*Silvia Helena Cardoso do Amaral /CRP06/113107

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