Você conhece a história da pérola que admira?

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Há um hábito silencioso que carregamos sem perceber: olhar para a vida do outro a partir do lugar onde ela chegou.

Vemos uma conquista, um relacionamento, uma profissão, uma família, uma serenidade que parece inabalável. Admiramos o brilho, mas quase nunca nos perguntamos sobre a estrada que o antecedeu.

Talvez porque as estradas tenham uma característica curiosa.

Para quem as percorre, elas são feitas de cansaço, desvios, esperas e incertezas. Para quem as observa de longe, parecem apenas um caminho bonito que termina em algum lugar desejável.

É assim que, muitas vezes, construímos nossas comparações.

Enquanto atravessamos nossas próprias estações, voltamos os olhos para a estrada ao lado e imaginamos que ela foi mais curta, menos íngreme ou menos dolorosa que a nossa.

Esquecemos que toda travessia deixa marcas invisíveis.

O tempo seco também resseca por dentro.

A chuva não molha apenas a roupa; há dias em que ela alcança a esperança.

O frio não traz apenas a gripe; às vezes, revela a solidão.

O sol não aquece apenas a pele; também expõe aquilo que tentávamos esconder.

Cada estação nos transforma de uma maneira diferente. Algumas deixam cicatrizes que todos enxergam. Outras permanecem escondidas até de nós mesmos.

No entanto, quando olhamos para alguém, não enxergamos suas estações.

Enxergamos apenas o lugar onde ele parece ter chegado.

É nesse ponto que a psicanálise nos convida a desconfiar do nosso próprio olhar.

Não sofremos apenas porque o outro conquistou algo que desejamos.

Sofremos, muitas vezes, porque atribuímos à vida do outro uma narrativa que nunca conhecemos.

A fantasia ocupa o espaço deixado pela ausência de informação e, silenciosamente, passamos a acreditar que algumas pessoas chegaram onde estão sem enfrentar as tempestades que ainda atravessamos.

Mas nenhuma história humana é construída dessa forma.

Toda existência conhece o tempo da escassez, da espera, da renúncia, do medo e da reconstrução.

A diferença não está em quem sofreu menos.

Está na forma como cada sujeito conseguiu responder ao que lhe aconteceu.

A psicanálise nos ensina que não somos apenas o resultado daquilo que vivemos, mas da maneira como elaboramos nossas experiências.

Atravessar uma dor não significa apagá-la.

Significa permitir que ela encontre um lugar na nossa história, sem determinar todo o nosso destino.

Talvez seja por isso que a imagem da pérola nos toque com tanta delicadeza.

Quando admiramos uma pérola, vemos beleza, valor e brilho.

O que raramente lembramos é que ela nasce de uma irritação.

Um pequeno corpo estranho invade a ostra e rompe seu equilíbrio.

Em vez de expulsá-lo, ela o envolve, camada após camada, até transformá-lo em algo precioso.

Há uma sabedoria silenciosa nessa imagem.

Também nós somos atravessados por acontecimentos que não escolhemos.

Perdas, rejeições, frustrações, despedidas e silêncios tornam-se parte da nossa história.

Não porque o sofrimento seja desejável.

Mas porque a forma como respondemos a ele participa da construção de quem nos tornamos.

Talvez seja essa a maior armadilha da comparação.

Enquanto conhecemos cada detalhe da nossa estrada — os tropeços, os medos, as pausas, as lágrimas e as dúvidas — olhamos para a estrada do outro apenas pelo ponto onde ela chegou.

Comparamos a intimidade da nossa travessia com a superfície da história alheia.

E essa nunca será uma comparação justa.

Antes de admirar ou invejar a pérola de alguém, talvez valha uma pergunta mais honesta:

Você conhece a história da estrada que a tornou possível?

Porque toda pérola tem uma história.

E toda história foi escrita por uma estrada que quase ninguém viu.

Andreia Lages

Psicanalista/Escritora/Colunista/Membro do Name (Núcleo da Mulher Empreendedora) da ACE Catanduva e sócia da Different Grife.

Contato Watsapp (17) 99747-1682